2016_Mario Gioia

Remanescer, erguer, habitar

Sobre a exposição no Centro Cultural São Paulo, 2015/16

 


Em nova individual no CCSP (Centro Cultural São Paulo) como artista convidada, Teresa Viana lida novamente com a atração e a repulsa, a exibição ostensiva e o ocultamento, o aveludar e o crispar, entre outros vetores poéticos, dentro da sua obra pictórica. Egressa da geração 90, conhecida como a do objeto, a carioca radicada em SP desenvolve, contudo, outros desdobramentos, projeções e feituras dentro de persistente processo artístico.


As novidades mais evidentes são a apresentação de trabalhos tridimensionais, mesmo que estejam completamente ligados a uma ideia de pintura expandida, e o esboço de uma verve mais figurativa, por mais que tal âmbito seja mais sugerido e tracejado, mas que não ganhe uma configuração completa nesses termos.


Nesse sentido, uma pintura de generosas proporções é central no recorte. Do chassi hoje em predominante azul é de onde se despedaçaram os fragmentos agora eleitos como peças tridimensionais, experimentos de cor que se desprenderam da tela por conta de acidentes durante o emprego da encáustica por conta da artista. Guardados no ateliê por anos, ganham ‘vida’ como obras autônomas. Ajudam a conferir vigor ao conjunto total, reforçando a estranheza da produção e agregando um caráter de descontrole vívido na investigação plástica e de conceitos de Viana. Cacos descartados que então se abrem para leituras abertas, ainda mais na disposição expográfica da instituição, um dos espaços arquitetônicos mais interessantes da cidade e efetivamente democrático em sua frequência.


Já um díptico, mais recente e também de boa escala, ao mesmo tempo ajuda e coloca em crise visadas mais estanques a respeito da obra. Com um laranja mais relevante na composição, a tela revela mais a superfície, talvez uma proximidade maior com o desenho levemente depositado em seu momento inicial, e a escolha de não preencher obsessivamente. O gesto recolhido irá, depois, transmutar-se e tornar-se acúmulo nas extremidades do quadro.


Uma senhora, uma fonte d’água, um coelho, um rosto. O conjunto de pequenas pinturas se abre a interpretações figurativas com multiplicidade, mas sem definições fechadas. Esse enigma contido em cada mínimo sketch de Viana dá ao observador um senso de liberdade efetiva. O cromatismo habilmente construído pela artista pode seduzir, porém a gestualidade algo disforme e as ‘bolotas’ que se avolumam sobre a superfície também podem afastar. Nesse jogo de aproximação e distanciamento, o público ainda pode se inebriar com o odor que não se esvai dessa matéria, pulsante e, assim, tanto objeto de convulsão como de opacidade.