2021_Icaro Ferraz Vidal Junior

Fragmentos do infinito

Há certamente dois labirintos do espírito humano: um concerne à composição do contínuo, o outro à natureza da liberdade; ambos nascem de uma fonte idêntica no infinito.

G. W. Leibniz[1]

 

O título da exposição de Teresa Viana – Fragmentos do infinito – coloca-nos diante de uma impossibilidade lógica: Como fragmentar o infinito, cuja definição prevê uma continuidade ilimitada? A fragmentação do infinito não implicaria sua própria aniquilação? Tal impossibilidade habita o cerne da poética da artista, cujas pinturas nos situam em um ambiente paradoxal, no qual podemos vivenciar, sensorial e afetivamente, o infinito. Tal ideia pode soar estranha a quem vincula a noção de infinitude a um plano transcendente, mas insistirei nela porque creio que o que está em jogo na obra de Teresa Viana não se esgota em sua vigorosa contribuição para os debates específicos ao campo da pintura. Subjaz, nesta produção, uma consistente ontologia que privilegia as forças em detrimento das formas, a presença em detrimento da representação e o corpo em detrimento de uma mente desencarnada. Se é verdade que essa aposta na força, na presença e no corpo reverbera em questões pictóricas; mais profundamente, ela confronta modos de ver, de ser e de criar que, forjados no contexto da modernidade ocidental, estruturam-se em torno de suas lógicas hegemônicas – capitalista, eurocêntrica, patriarcal.

Mas cumpre advertir, desde já, que o referido confronto não se configura discursivamente na obra de Viana. O caráter político desta poética situa-se, antes, no modo como a artista disponibiliza, pelo menos desde os anos 1990, seu corpo como intermediário entre o plano pictórico e os fluxos de forças, invisibilizados pelo instrumentalismo que, sedimentado na cultura, modula nossa cognição. Nesse sentido, a célebre leitura que Gilles Deleuze faz da obra de Francis Bacon ajuda-nos a descrever a lógica que agencia as imagens-topologias de Teresa Viana: “A tarefa da pintura é definida como a tentativa de tornar visíveis forças que não são visíveis”[2]. A primazia dos campos de força em relação à forma resulta no que o filósofo francês chama de lógica da sensação porque, diferentemente das formas, que apreendemos cognitivamente e cujas articulações recompomos para produzir sentidos; as forças se exercem sobre nossos corpos, condicionando sensações. 

As massas coloridas de encáustica que se sedimentam sobre as superfícies pictóricas de Teresa Viana resultam em topologias labirínticas que condensam o pensamento sensorial da artista. A persistência da aposta de Viana na pintura enquanto campo privilegiado para elaboração de um pensamento irredutível às unidades discursivas, resultou no desenvolvimento de uma linguagem sensorial, que se esquiva aos investimentos interpretativos que buscam, nas densas massas cromáticas da artista, figuras familiares, como aquelas que buscamos reconhecer, desde nossa mais tenra infância, nas nuvens. Num caso como no outro, o reconhecimento da figura diz mais da mediação cultural de nossa percepção do que da imagem que temos diante de nossos olhos. Em todo caso, a espessura temporal na qual se desdobra nosso encontro com as pinturas de Teresa Viana é marcada por uma incessante oscilação entre nossa percepção mais corriqueira e sua captura e suspensão temporária diante do campo de forças que a artista descortina.

Outro aspecto que chama a atenção nas imagens-topologias labirínticas criadas por Viana tem a ver com o caráter centrífugo de suas pinturas, que tensiona a própria ideia de labirinto como um espaço de confinamento. Os densos caminhos coloridos desdobram-se virtualmente no espaço fora do quadro, desencadeando uma experiência de deriva sensorial do olhar-corpo pela abundância cromática e material que, independente da dimensão da tela, permanece inesgotável e aberta. Embora possamos nos perder nas labirínticas pinturas de Viana, o que está em jogo nelas não é encontrar uma saída, mas a ativação de um modo sensorial de se relacionar com a imagem, que faz desta perda de rumo uma potente deriva, como quando viajamos para um lugar desconhecido e podemos experimentar o frescor da percepção que, nas paisagens que nos são familiares, encontrava-se embotada. Nossa permanência nas pinturas de Viana não se deve à dificuldade de encontrar uma saída, mas às sensações desencadeadas por suas qualidades cromáticas e materiais.

Produzidas em encáustica e óleo sobre placas de compensado, mdf ou tela, essas pinturas são materializações de pensamentos que se desdobram no tempo da criação, sendo impossível pleitear uma ideação da forma anterior ao encontro corporal da artista com os materiais com que constrói suas obras. Esse pensamento resulta em uma diversidade de enunciados afetivo-sensoriais e se dobra sobre seus próprios movimentos sensíveis, apostando na imanência da pintura como campo de atração, à diferença de movimentos transcendentais que lançam mão da pintura para nos levar para um outro lugar. O infinito de Teresa Viana é relacional, não consistindo simplesmente em um espaço-tempo teoricamente ilimitados. A infinitude que experimentamos diante dessas pinturas pressupõe a suspensão temporária das articulações entre espaço e tempo, tal como as conhecemos. Trata-se de um acontecimento radical, que insere a experiência estética com essa produção no mesmo patamar existencial das experiências eróticas e místicas.

A prática de Teresa Viana traz frescor para o debate contemporâneo em torno da pintura. Embora tenha forjado uma linguagem pictórica marcada por um trabalho cromático e material que é único, sua prática não cabe no glossário modernista. O que está em jogo aqui não são os fundamentos da linguagem pictórica. Em diálogo com essa tradição, o pensamento-corpo-sensação de Teresa Viana, que se materializa em pintura, é irredutível a uma abordagem formalista. Esse processo de criação pictórica do infinito resulta de um modo de ser que reconhece os limites da cognição modulada pela cultura, e aposta na arte como potência descolonizadora dos fluxos de força que turbilhonam sob a aparente estabilidade do mundo que nos cerca.

Icaro Ferraz Vidal Junior

 

[1] LEIBNIZ, G, W. Opuscules et Fragments Inédits: par Louis Couturat. Paris: Félix Alcan Éditeur, 1903.

[2] DELEUZE, G. Francis Bacon: Lógica da Sensação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007, p. 62.