2012_Ana Magalhães

Teresa Viana: A corporeidade da cor

Sobre a exposição no Museu de Arte de Ribeirão Preto, SP.

 


(…) Os coloristas, que são aqueles que possuem todas as partes da pintura,
devem estabelecer ao mesmo tempo, e desde o início, tudo aquilo que é
próprio e essencial a sua arte. Eles devem modelar com a cor assim como
o escultor modela com a argila, o mármore ou a pedra (…)
Diário, 23 de fevereiro de 1852, Eugène Delacroix



Explosão de cores vivas, alegres, traduzidas por uma materialidade sedutora: talvez seja esse o primeiro impacto que temos diante das telas de Teresa Viana. Nesses termos, o espectador desavisado se aproximaria de sua pintura por puro deleite. Mas aos poucos, se dá conta que suas composições demandam outro tipo de interação, que nos força a ir além da contemplação.


Preparadas em encáustica – técnica tradicional que faz uso da cera de abelhas como base para elaboração das tintas (tinta a óleo) –, as cores de Teresa Viana ganham uma forte presença física em suas pinturas, que vão se concebendo com camadas e grossos traçados sobrepostos. Embora a cor pareça um vestígio da mão da artista, seus dedos, talvez, sobre a superfície da tela, não é assim que a artista trabalha: ela usa o pincel (não é nem uma espátula), que é mergulhada na densa massa de encáustica pigmentada e aplicada sobre a tela. Seu procedimento foge às práticas mais recentes das referências modernas e contemporâneas – pelo menos aquelas que estamos mais habituados a ver: não se trata de um modo expressionista/gestual de trabalho com a pintura, tal como consolidado pela prática de um Pollock, e na década de 1980, por exemplo (quando a artista se formou), pelas tendências do neoexpressionismo. Teresa parece controlar seu gesto e com a escolha da encáustica como técnica procura alcançar dois efeitos: o primeiro deles, mais evidente, diz respeito à qualidade mesma das cores e das superfícies; ou seja, a tinta que tem por base a encáustica, além de mais viva e densa, não escorre, e se solidifica quase para dar um aspecto escultórico à superfície da pintura. Depois, a cor não é abstração, aqui: sua densidade material e seu aspecto escultórico fazem com que ela salte para fora da superfície, ganhe um corpo e passe a ativar o tato. Portanto, a interação que ela demanda daquele que está diante dela é de ordem sensorial. Somos imediatamente atraídos por essas massas coloridas e ao nos aproximarmos das composições, revela-se para nós uma trama complexa de superfícies diferentes. Anteriormente, a artista trabalhava sobre madeira ou tela, recobrindo integralmente a superfície da pintura, criando grossas camadas de cor. Mais recentemente, há um jogo entre superfícies lisas, por vezes transparentes, e partes da composição nas quais se percebe o adensamento material. Em alguns casos, no lugar da tela ou da madeira, a artista trabalha sobre uma imagem produzida digitalmente, sobre a qual aplica as tintas preparadas na base de encáustica. Assim, ela cria um jogo de relevos e sensações táteis variadas em sua pintura, aguçando ainda mais os estímulos sensoriais de seu espectador.


É nesse sentido, vemos sua pintura em diálogo com as vertentes mais expressionistas da prática pictórica ao longo do século XX, que tem por fundamento a construção da composição por via da cor e não da linha do desenho. Por outro lado, a paleta de Teresa faz pensar em outras referências, que embora tenham informado a tradição expressionista, procuraram tratar a cor mais pelos seus aspectos sensoriais: falemos de Henri Matisse e do “último Monet” (para usar uma expressão greenberguiana). Como não pensar, aqui, nas composições de Matisse fauvista e nas versões (essas sim quase expressionistas) da ponte japonesa de 1923-24 de Monet? Embora menos referenciados pelas práticas contemporâneas de pintura, Matisse e Monet deixaram um legado importante para a pintura do século XX, e que parecem emergir muito claramente na pintura de Teresa Viana. No caso brasileiro, Teresa pode vir na esteira de um pintor como Iberê Camargo, por conta da maneira como trata as superfícies adensadas de sua pintura, e reinterpreta as tendências do neoexpressionismo dos anos 1980, tal como vistos à época da memorável Bienal da Grande Tela, em 1985.


Mas Teresa é de certa forma uma outsider. Em primeiro lugar, porque seu trabalho parece conciliar uma abordagem colorista da pintura com uma carga mais subjetiva, corpórea. Depois, Teresa é uma mulher pintora numa arena tradicionalmente masculina. Essa dualidade parece estar presente justamente na combinação entre sua paleta muito vívida, de cores intensas e quentes, e os densos empastamentos que vão concebendo suas composições. Ela ainda exprime um finíssimo equilíbrio entre a cor e o desenho, uma vez que tende a trabalhar com um gesto bastante controlado – e que se quer controlado. O uso da trincha na aplicação das camadas de encáustica acaba por determinar um ritmo e uma sistematização do gesto, só visto talvez na pintura do último Monet. Portanto, a composição é bastante construída e parece dar margem a menos improvisos do que os procedimentos de dripping ou da action painting, por exemplo. Além disso, o princípio da livre associação não é o que informa seu procedimento como pintora.


Por fim, a artista vai a contrapelo das atuais tendências contemporâneas, afirmando-se pintora e colorista. Na tradição ocidental de pintura, coloristas eram os pintores que se afastavam do desenho e da perspectiva linear e concebiam suas composições através de massas de luz e sombra, fazendo uso de cores luminosas. Também eram tomados como coloristas pintores que buscaram apreender o frescor da luminosidade natural em suas representações. Matisse talvez tenha sido o maior colorista do século XX: ao lado de Picasso (e Cézanne antes deles), pode-se dizer que a obra de Matisse continuou a veia pictórica fundamental na história da arte moderna. Essa vertente, que se contrapunha àquela mais objetiva das experiências cubistas, encontrou seus desdobramentos nas incursões expressionistas. Mas uma coisa foi sendo abandonada da experiência matissiana: seu caráter mais sensorial/sensível e a investigação da pintura como suporte numa perspectiva que não fosse a das formas, e sim das cores. A pintura de Teresa quer retomar essa pesquisa deixada pelo caminho e ainda aposta na pintura como meio de expressão renovador, fresco e subjetivo. Ela recoloca em pauta o sensível/sensorial como valor para a pintura.